Carta ao Futuro

Thursday, February 09, 2006

A princesa do bairro

Depois de uma adolescência recheada de alcunhas num rol que até eu já perdi a conta eis que surge um novo, desta vez, gentilmente cedido por uma senhora do bairro onde moro, que parece que só agora me descobriu, embora nos vejamos quase todos os dias. De há duas semanas para cá, quando me vê, chama-me " a princesa do bairro". A primeira vez que ouvi, fiquei chocada, mas sorri. Pensei que lhe haveria de passar. Mas a verdade é que não. E pior. Já se espalhou. Ainda ontem, outra senhora me chamou de "princesa".Eu, que nunca em miuda, quis ser princesa, nem nunca achei grande piada sou agora vítima desse pequeno epíteto. Que coisa mais sem graça. Que ser mais dependente, sempre com alguém atrás. E eu prezo a minha independência.
As princesas têm principes lindos de morrer.
Eu tenho enucos.
As princesas não fazem nada, têm uma legião de gajas que andam atrás dela a atirar pétalas de flores para a menina passar.
Eu se quiser comer tenho de cozinhar, se quiser a roupa sem vincos tenho de a passar, e tenho de ter cuidado redobrado quando ando na rua para não pisar dejectos de animais.
As princesas têm tudo o que querem, quando querem.
Eu também tenho... quando sonho.

Não percebo muito bem, onde está essa relação da minha pessoa com uma princesa. Se fosse com a gata borralheira, ainda vá que não vá, pelo menos havia semelhanças mas assim... E o pior é se a moda pegar, e eu me vir obrigada a tomar conta deste pequeno reino que não tem mãos por onde se lhe pegue.

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