Devaneios ébrios
Não consigo evitar. Volto no tempo. Recordo. Revivo os momentos. Partilho mas é como se estivesse lá outra vez. E volto a sentir, ou sinto como se fosse a primeira vez. Relembro envolta nesta negritude em que tudo se transformou. Os díspares rumos que tudo seguiu. Relembro vários momentos, velhos tempos de alegria e de festa. Dos cheiros, das cantorias, das piadas, bebedeiras. Conversas, nada sérias, mas com bastante cabeça. Dos memorandos que estas paredes gritam, cada vez que passo por elas. O silêncio que me ensurdece. A cabeça gira. Procura algo. Um sentido. O que eu quero, já está perdido. O que eu acredito. Já não existe. O que era bom, já não persiste. Não aqui. Não agora. Nem neste canto. Nem no que me rodeia. Afasto-me. Isolo-me. Procuro o que acredito. Não existe. Não para mim. E onde eu ia buscar a minha crença, já não existe a presença. Apenas a cinza. Os restos das minhas memórias. As sobras de quem recorda. De quem vagueia por esta casa, e absorve cada ressaca do que foi o passado. Da primeira e segunda vez. Alturas distintas. Mas com sentido. Deram a volta. Ganharam ritmo. Mas acabou. Nada mais é permitido. Um trago de vinho. Um suspiro. Sem desabafo. E reprimo. Para mim cada segundo. Cada minuto. Hora distinta. Escondida. Iludida em cada mentira que procuro obter. Eu sei que não te vou ter. Mas não és a razão da minha preocupação. A bezana é grande, mas ele não é a razão. Vou-me deitar. Dormir. Iludir. Sonhar que este mundo não é só desilusão. Que há algo verdadeiro para além da mentira iludida. Por que não??

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