A Ana
Conheci a Ana, sei lá, há uns quatro, cinco anos, ou talvez um pouco mais. Conheci-a porque ela é A amiga de uma amiga minha.
Uma pequena nota de redactora para afirmar que é ponto assente que as minhas amigas são sempre bem mais velhas que eu, em média, uma década a mais. O que confesso, só me tem trazido mais valias.
Revoltada como eu era na altura, que bem me lembro, recordo-me também que no momento em que a conheci, em que mal a conhecia e ela veio com conversas cheia de moral para cima de mim numa altura em que tudo o que me diziam me passava ao lado, e não a conhecendo de lado nenhum, mais um motivo para nem sequer dar importância. A verdade é que tudo o que ela me disse naquela noite, me bateu forte, tal cabeça enfiada sob um sino em constantes badaladas. (Doze no máximo..).
E ainda hoje, uso e partilho uma máxima que ela me demonstrou nessa mesma noite. Uma lição que ainda hoje mantenho.
Esta noite, revi-a. E quando me viu disse-me, “continuas na mesma”. Já não a vi-a desde o Verão, uma tarde em que ela passou pelo meu bairro em que falamos a correr, numa das pequenas pausas dela do trabalho. Mas tirando esse momento pontual, já lá iam dois anos em que não a vi-a.
E depois do jantar, e da tertúlia na cozinha, enquanto debatíamos o facto de eu ser, do ponto de vista dela, “inconsequente”, enquanto do meu ponto de vista eu sou-o, mas com cabeça, ela abriu o jogo à minha frente. E em poucas palavras disse-me todos os meus pensamentos, desculpas e contornos da minha vida que eu tenho pensado durante todos estes anos. “ Não sou as tuas amigas dos copos”, terminou ela renitentemente a sua postura perante mim. Mesmo sem nada com ela partilhar durante anos, ela tira-me a máscara, e eu anuo porque não tenho por que disfarçar.
E sim. Ela tem toda a razão. Mas mesmo tudo o que ela me disse eu já tinha pensado e repensado. Faz parte da minha consciência. Tal como 2+2 serem 4.
Sim. Ela tem razão.
Continuo na mesma. Nada mudou. Os mesmos medos, fragilidades e auto-punições continuam. Sou a mesma pessoa fragilizada que ela conheceu revoltada há uns anos. Mas agora com mais defesas. Daí o meu ar descontraído. E desenvolvi um estado de deixa andar, porque esta vida não me obriga a pensar. Mas eu tenho essa consciência. Eu sei em cada trago o motivo para o fazer. E tenho cuidado comigo mesma. Excedo-me, por vezes é verdade, mas com limites.
E gosto de falar com ela e de trocar impressões. Porque sempre que tal acontece é como que enfrentar um pouco de mim mesma. Se calhar ela tem razão.. as pessoas não entram na nossa vida por acaso.

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