Carta ao Futuro

Thursday, December 14, 2006

Pro-Choice

Num país ao estilo “big brother” democrático, em que já nem o voto é secreto e onde a manipulação de mentes é tão explícita pelos mais poderosos, no meio de uma população extremamente envelhecida, que se deixa inocentemente levar pelo poder da retórica, onde o acto de pensar dá demasiado trabalho, e que por isso “é melhor seguir o que aquele senhor da televisão que fala muito bem disse, porque sim senhor, ele sabe”, vai-se alastrando de norte a sul, pela tão americanada chamada: cultura do medo.
Isto tudo, por causa da questão do aborto. Sim? Não?
Cada caso é um caso. Isso é ponto assente.
E se isto é um país democrático, temos de ter direito de escolha. Temos nós, mulheres, porque somos nós que levamos com as “consequências” de ter o direito à opção, se queremos ou não dar seguimento à gravidez, (obviamente, quando não desejada/planeada).
Por mais cuidados que se tenha, pode sempre acontecer um percalço, e cabe a nós, essa decisão.
Não compreendo o problema dos “superiores”, que enchem a boca para dizer Não, quando eles podem, se assim for caso disso, pagar um aborto em qualquer um outro país em que essa questão é uma opção.
Os jovens são o futuro. Como esperançosamente gostam muitos de alumiar os mais desfavorecidos como que a dar alento para que se manterem na luta por algo melhor, enquanto eles se refastelam com grandes manjares, os jovens com um “jardim infantil” atrás têm de deixar de comer para alimentar essas bocas e comprar os produtos (que são cada vez mais caros e em nada considerados como um bem essencial).
Com que direito põe e dispõe das nossas vidas tal comandantes diante do seu navio, se nem sequer nos conhecem nem têm participação activa no nosso dia-a-dia.
Falar é fácil, debaixo das luzes da ribalta com aquele sorriso ou olhar supostamente cativante como que a tentar conquistar a confiança de um gato selvagem, mas melhor ainda é o ar de desanuvio assim que as luzes se apagam e vira costas com o pensamento “ estes já cá cantam” enquanto na sua mente duas mãos se esfregam com contentamento.

Não é apenas uma questão de despenalizar. É dar alternativas, mas ao mesmo tempo fazer algo para evitar que se tenha de recorrer a essa opção. É apenas deixar uma janela aberta onde uma porta se fecha.
Obrigar as escolas a terem disciplina de educação sexual, terem até um departamento para os jovens poderem esclarecer-se individualmente, já que é um assunto visto ainda como tabu, podendo até depois essas questões serem abordadas como que “inocentemente” nessas mesmas aulas. Tanta coisa que se poderia fazer. Jogos didácticos, interactivos, já que estamos em plena era tecnológica.
Todos teríamos a ganhar se fosse visto como uma questão de direito de opção e não como algo demoníaco. Ao estilo de ser apedrejado em praça pública.
Mas pelos vistos não é em tudo que o Estado está separado da Igreja.

2 comments:

  • Não discordando da hipocrisia que rodeia a penalização do aborto, continuo a questionar-me sobre os porquês de esta ser uma questão feminina. É certo que, fisicamente, são vocês que arcam com as consequências. Mas o factor psicológico não se divide pelo casal? Deve, ou não, o pai ser consultado sobre estas opções? Algo que nunca se dicute, por entre as habituais demagogias que rodeiam a discussão.

    By Blogger Quetzal Guzman, at 15 December, 2006 22:15  

  • Acho que sim. Que em casos normais, o pai deve também ter uma palavra a dizer. Afinal se dois fazem dois podem desfazer. Por mais cru que possa parecer. O parecer do pai é essencial. Mas cabe à mulher decidir. Agora... claro que com o poder da retórica muita coisa se consegue.

    By Blogger Xeka, at 16 December, 2006 02:45  

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