Carta ao Futuro

Thursday, January 04, 2007

"Meninos à escola"

Sei que tinha feito a promessa de o procurar assim que começasse o novo ano. E a minha intenção era a de a cumprir, mas, não fui a tempo.
A noite já ia alta e eu preparava-me para me deitar. Toca o telemóvel. Era ele. Queria saber onde estava, se queria ir dar das nossas escapadelas nocturnas. E se podia levar dois copos de plástico. Copos de plástico. Não sei como, mas a verdade é que eu por acaso até tinha copos de plástico em casa.
Foi uma surpresa. Aquela mensagem deixou-me estarrecida. Quando o móvel tocou passou-me a possibilidade de ser muita gente, mas ele, em que houve períodos em que era a certeza ainda antes de ver de quem era, não foi sequer uma hipótese.
Enquanto não chegava, andei irrequieta pela casa, de um lado para o outro como uma barata, com correrias para a casa-de-banho, pequenos tremores, parecia que tinha voltado tudo ao início.
Ele chegou, e lá fomos nós, para o nosso refúgio, comemorar com direito a brinde o Novo Ano, com o vinho doce caseiro que ele tinha arranjado.
E enquanto ali estivemos, em pequenos momentos voltei a encantar-me. Com o seu sorriso de menino enquanto brincava e dançava ao som do brinquedo que eu tinha arranjado para o sobrinho dele. Parecia uma criança.
Olhou para o relógio e exclamou que o tempo passa depressa.
Sim, quando estamos juntos normalmente é o que acontece, mas apenas me saiu uma frase feita a concordar com o que me tinha dito: Sim, o tempo voa.
Mas não queria ir-se embora, tal como das outras vezes em que olhava para o relógio e via que o momento já ia longo. Não tens pressa para ir dormir pois não? – perguntou-me ele de seguida recostando-se no banco dando continuação à nossa conversa e riso, tão à nossa maneira.
Disse que não, estávamos à vontade e prolonguei até poder esta nossa sintonia.
Até que, podre de bêbeda, mal a aguentar-me, ele olhou para mim e disse: “Meninos à escola. Eu levo-te a casa.”

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