Carta ao Futuro

Thursday, April 26, 2007

A modéstia

A Sílvia a queixar-se do seu trabalho.

- Já não tenho paciência para o meu trabalho. Só gajas!! Só galinhas a falarem mal uma das outras, nas costas, na frente.. enfim.. o quadro de sempre..

- Não há nenhum gajo para lavar as vistas?

- Haver há. Dois. Sendo que um deles é bem giro. Mas ele não me liga nenhuma. Nem sequer olha para mim.

- Será gay?

- Só pode!!

Monday, April 23, 2007

Here we go again

O problema da segunda-feira feira é que está associada à ideia de tudo a começar de novo.
Mais uma semana a começar. O cérebro é forçado a adaptar-se à postura profissional. Veste o fato e em passos lentos tenta dar início ao ciclo.
Pior é quando se adiciona restos de ressaca de sábado à noite. A idade parece que está a fazer-se sentir. O metabolismo já não é o que era e hoje estou a ressentir isso mesmo.
A rentabilidade é mínima e a produtividade, até agora, quase inexistente.
E sendo amanhã vésperas de um abençoado feriado onde se tudo correr bem voltará a ser sábado, quinta-feira será de novo segunda-feira.
Se uma segunda-feira já é mau, imagine-se duas na mesma semana..

Friday, April 20, 2007

Agradável surpresa

Já lá ia quase uma mão cheia de meses desde a última vez que vi o Afonso. O seu ar tímido e o sorriso de criança rapidamente conquistou a minha atenção. Acho que já nem me lembrava da sua existência, não por mal, apenas porque só nos vemos em questões de trabalho que podem levar quase uma mão cheia de meses a acontecer.

Mas foi uma agradável surpresa chegar vinte minutos atrasada à reunião, passar à frente de tudo e de todos sem ver nada, excepto aqueles olhos na primeira fila aos quais me agarrei como ponto de referência para tentar passar despercebida no tumulto que estava a criar.
O melhor estava reservado para o final.
Quando a reunião terminou e saí para beber café o Afonso dirige-se à mesma mesa onde me encontrava sentou-se ao meu lado e falou.
Pela primeira vez ouvi-o falar desprendido de qualquer timidez, igual a ele próprio a partilhar os planos dos seus novos projectos. O à-vontade de uma comunicação não muito próxima nem intimista mas com confiança suficiente para partilhar as novidades pessoais.
Soube muito bem reencontra-lo sem saber quando o voltarei a ver. Mas espero que quando tal acontecer ele me volte a surpreender.


Wednesday, April 18, 2007

Cheira a Verão

Mal dei pela Primavera passar e já anunciam dias de chuva. Deve ser para fazer jus ao ditado: Abril águas mil.

Tirei os chinelos de praia do armário e ando de manga curta pela rua sem a preocupação de um casaco porque não está tempo para isso.

As janelas da casa abrem-se em par para deixar entrar a luz que dá outra vida aos quartos.

Os fins de tarde, passados em volta da mesa em frente à porta da varanda escancarada para trás com quatro indivíduos a esticarem-se para apanhar os últimos raios do dia ao sabor de uma cerveja bem gelada a ouvir música entre jogos de cartas e afins.

Gosto deste preview do Verão.

Acho que até já ganhei uma corzinha.

Thursday, April 12, 2007

Destination: Anywhere

Preciso de acção na minha vida. Não gosto muito de ficar parada porque acabo sempre por pensar, perco sempre tempo com pensamentos desnecessários que por vezes não me fazem muito bem. Institui em mim a obrigação de acção. Constante movimento. Tornar-me útil.
Mas a actividade é sempre a mesma. A rotina não muda. Ontem apercebi-me disso, no regresso aos passeios canídeos nocturnos com o vizinho que regressou da “terrinha” após as férias pascais.
Quando me perguntou como foram os meus dias e lhe respondi os mesmos de sempre não precisei abrir mais a boca. Foi só ouvi-lo falar das aventuras que tivera nesta última semana.

Quero misturar-me com pessoas, ir para o meio da confusão, inundar-me de mil e um sons de rotinas alheias, descobrir novidades, aventurar-me.
Como eu queria ter um tapete voador.
Tirava a tarde e ia surfar o vento, misturar-me com as nuvens. Ia ver o mundo de cima na sua bucólica rotina.
Ia pairar sobre o mar, lagos e montanhas, pousar no topo de um qualquer castelo ou palácio.
Voava sobre o Guincho, Sintra até ás Berlengas ou aventurava-me mais longe, sem direcção.
Se tivesse um tapete voador, esta tarde seria minha, não entregaria o meu precioso tempo nas mãos do chefe. Partiria para pelo menos por umas horas, mudar a minha rotina.

Wednesday, April 11, 2007

Times they are a-changing

“Parece que as coisas estão a voltar ao que eram”, disse-me a Sofia depois de lhe contar como têm sido os meus últimos dias.
Não o posso negar. Realmente assim é. Não com a regularidade de outros tempos, com outros intervenientes, outras distracções. O ambiente de festa voltou a instalar-se no local do costume. Pessoas a cruzarem-se nos corredores, à volta da mesa colocada no meio da sala ou sentados num dos quartos em constante cowboyada. Música a fuir pelas colunas ou do amplificador, a televisão a passar um filme ou em concentração para uma competição, um tabuleiro com peões numa intemporal diversão.
Tudo continua mas começa de novo.
As coisas parecem estar mesmo a voltar ao que eram, embora por vezes desejasse que o grupo fosse um pouco mais extenso.

Monday, April 09, 2007

It takes two to tango

São precisas duas pessoas para dançar o tango, mas raramente estivemos em sintonia física e foi pouco o esforço para combater a harmonia da distância.
O grupo que tocava quando nos vimos pela primeira vez foi ironicamente o que estava a soar pelas colunas da última vez em que tivemos juntos. Marcava o compasso mas um de nós perdia o constante ritmo.
Procurei ter lições para poder aperfeiçoar discuti comigo mesma a hipótese de arriscar, a aprender esta dança. Demorei um pouco mais a assimilar a novidade, tive de enfrentar empoeirados passos do passado. E na noite da estreia do acto, depois de três dias de alguma concordância apareceste trajado mas não iniciaste o passo, não me pegaste nos braços. Pediste desculpa pela agitação que te ia na alma que no dia seguinte iniciarias a aula.
Mas não apareceste, nem nos dias que se seguiram, remeteste-te a um silêncio com desprezo, frieza sem sentimento.

É mais um oxímero sem qualquer tipo de sentido.

Palavras por dizer

Não suporto o desprezo nem ser ignorada. Não gosto de ser apanhada desprevenida sem recurso a uma justificação. Não tolero comportamentos infantis numa suposta de “crescidos” situação. E pior que as palavras não cumpridas porque são muitas vezes inconscientes consequências do momento, repudio a ausência das mesmas quando são mais necessárias que o imposto silêncio.
Estou zangada comigo mesma por ter feito a suposição, por quase ter acreditado que ao fim de tanto tempo eu não tinha razão.
E dei mais do que me era permitido e disse o que a mim mesma tinha imposto como proibido, ultrapassei-me, mas talvez não o suficiente.
Mas não fugi, não me escondi. Esperei por uma resposta que chegou quase como uma obrigação. Magoou-me a falta de coragem em outras vezes bem demonstrada. Feriu-me constatar que a imagem que criara de tudo o que me tinha sido apresentado parecia mais uma encenação barata.
Quando o choque passar, nada disto voltará a ter qualquer significado.
Nada.

Tuesday, April 03, 2007

Esperança na comédia de deus

Toda a gente conhece o Mário. Andar pelas ruas da Baixa é quase o equivalente ao seu nome. É fácil encontra-lo naquelas ruas, sozinho, de semblante tímido, a olhar para o chão com os headphones postos a calcorrear as históricas ruas.
Todos o conhecem mas ele não conhece ninguém. Quando passa desperta surpresa e admiração aos transeuntes com quem se cruza. Ele não repara em ninguém. Mas ele não é de todo indiferente com quem se cruza.
A Alice estava na Baixa. Andava de um lado para o outro distraída na conversa que estava a ter quando alguém tropeça nela.
Ela pára e olha para o lado. Era o Mário. Timidamente incomodado ele levanta os olhos do chão, concentra-se nos dela criando um silêncio momentâneo. A Alice, completamente apanhada de surpresa não se mexe, congelada pelo olhar daquele homem que tanta curiosidade lhe desperta.
Nada dizem. Ele vira-se, olha para o chão e segue o seu destino.
Ainda baralhada pela insólita situação, ela fica parada a tentar realizar o que acabara de se passar, e constatou que pela primeira vez vira os olhos do Mário, e que por momentos, foram inteiramente seus.