Carta ao Futuro

Friday, June 29, 2007

Como falar tunisino em três lições

- S'il vous plait monsieur, un bouteille de vin

Dez minutos depois..

- Monsieur, s'il vous plait, un bouteille de vin

Mais vinte minutos volvidos..

- LE VIN, seu cabrão!

Finalmente, chega a garrafa..

- Ah merci, vous êtes très gentil

Thursday, June 28, 2007

Principezinho - II

O Principezinho voltou a aparecer. Por entre a ventania que se fazia sentir na floresta, o menino de cabelo encaracolado insurgiu por entre as árvores. O seu traje habitual denuncia-o à distância e ali estava ele com o seu olhar meio perdido por entre as inúmeras cabeças que o observavam a movimentar-se.
Eu estava ali. À frente, primeiro que todos a contemplar cada pormenor o ínfimo detalhe do seu ser.
Ouvia a sua respiração por entre o murmúrio circundante e imaginava o seu pensamento naquele momento em que ele era o epicentro do turbilhão.
Ele não se mexia. Mas os olhos, esses, irrequietos, movimentavam-se num frenesim.
Não me mexi. Estagnei perdida naquela imagem inocente e pura.
Pôr em palavras, seria injusta pela escassez de um vocabulário, que embora seja dos mais ricos, não é ainda suficiente para transcrever os arrepios de magia que naquele menino estão inerentes.

Wednesday, June 27, 2007

Desconstrução - Caos - Harmonia

Se no início era o verbo a meio veio a desconstrução. Nada fazia sentido tudo virado ao contrário, sem rumo nem orientação.
No escuro ás apalpadelas, foi-se construindo uma realidade fictícia, imaginária de olhos vendados à margem do limbo sobre farpas que envolveram todo o caos que daí descambou, à destruição de sentimentos e à criação de mais alguns.
Receios e cegueiras no marasmo que revolve o ser, expurgando e abraçando no confronto mano-a-mano porque num algum dia lá terá de ser.
Choque ideológico de dois mundos perpendiculares que não conseguem co-existir terminando no derradeiro duelo onde a harmonia acaba por subsistir.

Monday, June 11, 2007

Reincidente

Preciso de férias daquilo a que chamo consciência. Da minha.
Preciso de me ausentar dela, a ver se se torna mais limpa. Mais clara. Evidente.
Preciso de dar o grito de Ipiranga que me manipula o pensamento, fazendo-me crer com afinco que é real o meu medo.

Vai demorar até o sentimento de culpa desaparecer. Até tudo voltar a ser como antes. Vou demorar ainda mais tempo a largar a mágoa e o peso do sofrimento que causei e as minhas dúvidas continuarão a insurgir marcando compasso a cada batimento do ritmo das incertezas que não me deixam dormir e me mantêm acordada, por entre tragos de vinho e de cigarros em forma de mortalha.

Friday, June 08, 2007

Principezinho

Do meio da floresta, por entre os grandes eucaliptos que a rodeavam ela viu surgir um rapaz.
Com o casaco comprido azul seco com enormes botões amarelos que lhe adivinhavam as linhas masculinas do seu corpo o rapaz de cabelo castanho claro encaracolado sorriu.
Que sorriso. Sorriso de menino. A inocência de uma criança retrata-se naquele sorriso contrastado com a barba que lhe esconde a cara.
Era o Principezinho. Ela tinha a certeza.
Tinha crescido. Estava mais velho. Mas a sua essência continuava lá. Não se havia perdido como é normal acontecer com o crescimento.
A mesma simplicidade, a curiosidade, a dedicação e a entrega. O seu olhar brilha por se encontrar ali. Afinal está em casa.
E absorta na imagem que tem à sua frente, ela gostava ter como registar o momento. É aí que se lembra da lição que ele lhe havia ensinado anos antes: “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.”
Deixou de fazer sentido o desejo de querer tornar aquele momento eterno. Já o era. E é só dela.

Thursday, June 07, 2007

Rendição

Sou culpada e peço desculpa. Eu, que não sei perdoar. Mas errei, pequei quando neguei a mão, o braço o abraço e preferi o isolamento, a escuridão na teimosia de falta de humildade de assumir os pontos fracos, fragilidades e o receio de uma negação, a preferência do nem arriscar para evitar a auto-comiseração.
Por ser egoísta e não ter a simplicidade de pedir, por me julgar auto-suficiente num mundo descrente, sem ponto nem nó, sem rumo nem norte, querer acreditar que o consigo, de que sou forte.
Irascível, cega bem dormente, desferindo golpes abrindo feridas a quem está sempre presente e não ter a coragem de baixar os braços gritar rendição voltando à estaca zero na seguinte ocasião.
Sou culpada por todo o turbilhão que me rodeia, fruto de uma falsa auto-confiança que me acompanha e sou responsável pelas dúvidas que fiz renascer, as incertezas outrora cimentadas como opostas que fiz o favor de remexer, abalando e criando conflitos internos que teimam em afincar-se como correctos prevalecendo contra o sentimento que até ao momento era de dialecto, de certeza, a razão.

Peço perdão.

Tuesday, June 05, 2007

Hoje o dia não é dos melhores. Mas já tive piores.
Não consigo concentrar-me no trabalho, são erros atrás de erros. E o pior: em coisas básicas.
Não quero saber o que os outros pensam, nem a sua posição em relação ao quer que seja. Não me interessam as suas desculpas nem os seus argumentos.
Estou chateada com tudo e com todos. Não tenho qualquer sentimento de culpa e tenho razões para o que sinto, plausíveis ou não.. who cares?? I don’t.
Em nada me interessa que me venham dizer que estou sozinha. Eu sei que sim. E são muitos os factores que contribuíram para tal. E são inúmeros os factos em que o constatei. Não quero emendas nem resoluções. Não quero.
E tenho o dom de magoar quem me rodeia. Todos temos. Calha a todos. Podia apresentar aqui a minha lista, mas não guardo ressentimento. Também eu já levei muito por tabela e nunca falhei. E continuo aqui.
O que eu quero? Não sei. Respostas essas não as tenho.

Todos nós temos coisas com os quais temos de levar, embora não suportemos, ou não gostemos. Eis uma curta lista do que até agora me lembrei.

- Que me liguem para o telemóvel e sem assunto para dizer cria-se um silêncio. Se é para fazer figura bonita, mais vale estar quieto.

- Os diminutivos. A mania que certas pessoas têm de acrescentar “inhos” no final das palavras.

“ É para pagar o café e o bolo se faz favor”

“Então quer pagar o cafezinho e o bolinho? São 1.20 euros.

- A fala a “bebé”. Parece que estão a falar com retardados, sem ofensa. Como se não soubessem falar normalmente. E normalmente trás sempre algum interesse adjacente.

“A tua vez há-de chegar.” Dá-me a volta ao estômago. Como se fosse um tipo de competição. Se é uma suposta dica de apoio, incentivo e coragem, tem exactamente o sentido inverso.

Gémeos

Os gémeos chateram-se. Quer dizer, o Paulo chateou-se com o Pedro. Na semana passada, o Paulo teve um pequeno problema conjugal e procurou o irmão. Aquele que sempre o entendeu, que lia os seus pensamentos, completava as suas frases. O problema do Pedro é ser um pouco egoísta. Quando é para a borga está sempre presente, quando o tema é mais complicado, tudo é desculpa para se ausentar.
O Paulo já nem se queixa mas está magoado. Sempre que o irmão precisou dele, ele marcou sempre presença. Cancelou reuniões, desistiu de encontros com amigos para marcar presença junto do irmão. Foi sempre desculpando, fechando os olhos. Até à semana passada.
A relação deles está fria e distante. Mal se falam e o interesse sente-se a desvanecer. Acho que é passageiro, mas também acho que não o é. Certamente não voltará a ser o que era. A dedicação de um e o desprendimento do outro deixou de coexistir no mesmo espaço outrora tolerado e sempre adiado com uma qualquer desculpa.
As palavras e frases que os faziam um só esmoreceram.

Lamento.

Os Édipos de hoje em dia

A Sílvia queixa-se do seu chefe, que parece não conseguir fazer nada sem ela. Ela deixa o seu trabalho em stand-by para dar apoio ao chefe que tem um problema em mãos mas que parece não o consegue resolver. Acaba por fazer o trabalho do chefe, que só tem mesmo o cargo.
A Carolina lamenta-se do marido. Gasta o dialecto a mostrar-lhe como se fazem e como são as tarefas domésticas, para no dia seguinte o voltar a repetir. Até os meus filhos aprendem mais depressa, murmura ela em tom de conforto.
O pai da Vera não se mexe. Pede à filha para tratar dos seus problemas porque ele não tem tempo.

Não importa o grau de relacionamento que se tenha com o género masculino, eles sempre virão em nós, mulheres, a Jocasta.
Somos, a mulher, como mãezinhas para eles. O prolongamento da sua infância. Têm de ser diariamente ensinados e relembrados como animais de estimação.
Se por acaso, fazem algo sozinhos, sem ajuda feminina, celebram e rejubilam-se como se a sua equipa de futebol tivesse ganho a Liga dos Campeões. Mas é efémero. No dia seguinte, estão amnésicos, já nada sabem, de nada se lembram.
Talvez nós também sejamos culpadas por em parte, prolongarmos a situação, seja porque motivo for: a Sílvia porque é o seu trabalho e precisa do dinheiro no final do mês; a Carolina porque é casada e tem filhos as responsabilidades são outras e a Vera porque os amigos nós escolhemos, a família aturamos.
E vai-se arrastando, é uma “pecadinha de rabo na boca” que mais tarde ou mais cedo, acabará por rebentar.

‘Pá merda com a antropocracia.