Carta ao Futuro

Thursday, August 30, 2007

Reencontro

A cabeça não andava muito bem, muitas dúvidas, muitas contradições, revoltas e por aí fora. Numa manhã de fim-de-semana, em que as perturbações mentais eram mais fortes que a capacidade de dormir, a Clara decidiu ir deambular pela Baixa da cidade. Sempre gostara daquela zona, embora passe por ali quase diariamente é sempre como uma descoberta. Os prédios são diferentes, há esplanadas e animação. Sempre gente a passar. Nunca nada é igual, e ali a sua rotina diária torna-se única, singular. Como se fosse sempre a primeira vez que por ali passasse.
Foi por isso, que o espanto se espelhou na sua cara quando se dirigiu ao Multibanco. Há sua frente, na fila de espera estava o Rodrigo. Eles não se conhecem, mas a Clara sabe bem quem ele é. Já o vira inúmeras vezes. De certo, talvez, ele também já tenha reparado nela, mas não naquele momento, em que ela, atrás dele, admirou a escassos centímetros o todo que vira sempre ao longe. E estava ali tão perto. A dedos de distância. Ele nunca olhou para trás. Nunca se apercebeu do que se passava à sua volta, mas a Clara tinha os sentidos todos em alerta e foi assim que ficou a saber onde ele estaria nessa noite. Ele pegou no telemóvel, marcou para alguém e anunciou o que iria fazer nessa tarde e para onde iria sair nessa noite.
Fez de propósito? – perguntou-se a Clara, mas depressa esquivou esse pensamento para não entrar em fantasias. Não interessa. Afinal a sua manhã começara subitamente a tornar-se interessante. Já nada a apoquentava. Os seus pensamentos que a levaram até ali eram o menor dos seus problemas. Afinal de contas, mesmo com o dia cinzento a ameaçar chuviscos ganhou todo um novo sentido, e o melhor, é que ainda nem começara.
A noite aproximou-se, e ela sabia exactamente onde ele iria estar. Já estava tudo planeado. Quando o momento chegou lá estava ela, plantada à distância do local onde ele tinha anunciado a sua presença e esperou. Esperou pela coragem de entrar naquele bar ou por outra coisa qualquer que lhe garantisse que ele lá estava dentro. Não foi preciso esperar muito. Entretida entre nervosismo e ansiedade no seu esconderijo à espera de um qualquer sinal, nem se apercebeu dele a sair do lugar que o ouvira a combinar pelo telemóvel nessa manhã. Manteve-se ali, tal sentinela na sua guarita e aguardou. Não demorou muito até ele regressar ao seu ponto de partida. De olhos sempre postos no chão fez o caminho inverso de regresso bar e no momento iminente de entrar levantou a cabeça e olhou em frente.
O que se passou a seguir foi estarrecedor. Um misto inefável de sentimentos.
Ele levantou a cabeça, olhou em frente e de um segundo para o outro susteve o seu passo e ficou a olhar para a Clara. Olhou-a como se a reconhecesse, como se o seu semblante lhe fosse familiar, mas nada disse. Baixou os olhos e seguiu o seu caminho. Ela sentiu-se estranha. Aqueles olhos olharam para ela. Ela tinha quase essa certeza. Mais ninguém passava ali naquele momento. Eram só eles. Será que me reconheceu? – Questionou-se. Agora é que não entraria no bar.
Mas depressa o seu receio desapareceu tão depressa como o fumo do cigarro que expelia tentando acalmar o tremor interior que a começava a dominar.
Retomadas as forças perdidas na intensidade do olhar que ele lhe atirou como se tivesse surpreso de a ver ali, a Clara dirigiu-se ao bar. E lá estava ele. Não a viu, mas ela fez tudo para que o Rodrigo não reparasse na sua presença. Ela só o queria ver. Admirar de longe, lavar as vistas, criar novas situações para as suas fantasias onde ele é mestre. Aproximar mais que isso é algo que está bastante para além da sua própria realidade. É demasiado assustador. Ele é apenas alguém inatingível que está ali à mão de semear e que acarreta a perfeição em pessoa. Pelo menos à distância. Uma maior aproximação requer um trabalho e esforço mental divino, que mesmo assim é inferior à força que o Rodrigo tem na Clara. Não seria suficiente.
A noite foi andando em frente, e a Clara, já meia anestesiada pelas cervejas que já tinha até aí consumido já se tornara bastante desinibida. Os nervos já estavam absorvidos no líquido amarelo, a confiança estava a crescer. De repente ela podia dominar o seu espaço. Mesmo com limites, desde que não invada o espaço alheio, tudo é permitido. Levantou-se para abastecer o seu copo e estrategicamente mudou de mesa, quase colada ao Rodrigo, de costas para ele, pernas cruzadas no banco, ficou ali, até o bar fechar a balançar-se com a surpreendente escolha musical que o DJ do espaço escolhera para essa noite.
Ela quase que jura que ele não voltou a reparar nela o resto da noite, mas isso eram meros detalhes. Ela vira-o. E era isso que interessava.
De todas as vezes em que ela conseguiu admirar o Rodrigo à distância, esta foi a que de certo fez a Clara mais feliz.

Tuesday, August 28, 2007

Fughetta

O cerco estava a apertar-se. Com a pressão circundante quase a sufocar juntamente com questões interiores que se iam acumulando, era como estar dentro de um balão de ar prestes a explodir.
A decisão foi difícil de tomar. Analisar prós e contras, independentemente da vontade há sempre princípios e limitações exteriores inerentes e equacionar as várias possibilidades que poderão advir. Medido o grau de risco e após decidido a longitude a que se estava preparado para alcançar, para o bem e para o mal, a pequena fuga teve início.
Em minutos que sobram contados por uma mão a mala estava pronta. Roupa atirada, enxovalhada sem qualquer ordem para dentro do saco e estrada.
A pressa de chegar é igual à de partir. Desaparecer. Fazer com que aquela vida faça sentir saudade ao invés do consumo abusivo, excessivo de dedicação e de fervilho a cada altura em que essa obrigação é precisa.
Custa deixar para trás quem faz parte do ser que tem sido vítima da proximidade criada servindo malvadamente tratada como saco de pancada. Agarrei a oportunidade e há tantas iluminações cujo tempo tem enegrecido, que talvez a distância permita reavaliar, clarificar.

Tuesday, August 21, 2007

Olhar para a Sofia é não reconhecer uma vida. Não que não saibamos que existe mas já em nada é o reflexo de mais de meio século de existência.
Agora que é a altura do seu descanso a guerra acabou de rebentar. A batalha começa com torpedos arrasadores. O reflexo do que foi uma era continua espalhado pelas inúmeras fotografias de família espalhadas pelo seu bunker. Mas não será suficiente no futuro, onde passarão apenas a ser folhas de papel coloridas com caras sorridentes, em grupo ou isoladas de uma vida que se tornará longínqua e inexistente. As memórias não poderão ser resgatadas.
Haverá o presente e os objectos que a rodearão, mas não terão qualquer significado. Os dias deixarão de existir porque não terão significado. Será apenas a existência de um ser multicelular onde o acumular de experiências e vivências serão uma nulidade no vácuo da sua significância.
O seu corpo já não é a sua pessoa. No seu rosto a pele acompanha o osso da caveira. Não há espaço para carne nem para identidade.
E a sensação de impotência é gigante.

Thursday, August 09, 2007

Proxima estacion: Esperanza

Como eu quero acreditar que tudo não passou de uma brincadeira, que não são verdadeiras as cáusticas palavras libertadas em tom de sufoco com alívio e descanso horas após o manifesto do contentamento do meu regresso.
Respeito a decisão anunciada que se tivesse sido dito de outra forma não magoava mas rasga e trespassa, ecoa com toda a intensidade denunciando cada fragmento de uma falsa realidade.
Pouco ou nada faz sentido por mais que me esforce por lhe dar um rumo, mas não consigo e ao mesmo tempo não desisto porque a falsa esperança que me rodeia faz-me crer que desta vez será diferente, nada se lhe assemelha, até ao próximo ataque surgir e ir-me de novo abaixo e voltar a resistir com a maldita esperança a fazer-me subsistir.

Monday, August 06, 2007

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Não quero falar sobre isso. Quero recalcar. Fazer de conta que nunca aconteceu. Que é ilusória a contradição de sentimentos e momentos do que foi vivido e naquela noite proferido.
Quero acreditar que foi uma partida do vento que corria, quando as mordazes palavras foram cuspidas de mira apontada para a minha pessoa. Sentido alterado, significado distorcido suportado pela força de intensidade do que tinha sido dito.
Procuro uma forma de refrear, suprimir a frase que reverbera dentro de mim, deitando por baixo o meu palácio encantado enegrecendo-o com pontos de interrogações, dúvidas, incertezas e mais questões.
Desejo encontrar a fórmula que lava a mágoa e que me permita voltar no tempo apagar aquele momento e prosseguir com aquela certeza indivisível da inacreditável sorte que tenho por ter o impossível.